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Primeira a receber polilaminina em MG, mulher diz que medicamento é ‘um sinal de esperança’

Mulher de Governador Valadares é a primeira pessoas de Minas a receber polilaminina Uma moradora de Governador Valadares, no Leste de Minas Gerais, tornou-se a...

Primeira a receber polilaminina em MG, mulher diz que medicamento é ‘um sinal de esperança’
Primeira a receber polilaminina em MG, mulher diz que medicamento é ‘um sinal de esperança’ (Foto: Reprodução)

Mulher de Governador Valadares é a primeira pessoas de Minas a receber polilaminina Uma moradora de Governador Valadares, no Leste de Minas Gerais, tornou-se a primeira mineira e a terceira brasileira a receber um tratamento experimental que busca estimular a regeneração de conexões nervosas em pessoas com lesão na medula espinhal. Thamires Fernandes, de 35 anos, sofreu um acidente que a deixou paraplégica em dezembro, e no mesmo mês, após entrar com ação judicial, recebeu a chamada polilaminina. Trata-se de uma rede de proteínas criada em laboratório a partir da laminina — proteína naturalmente produzida pelo corpo humano, principalmente durante o desenvolvimento fetal. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 Vales no WhatsApp A polilaminina ainda não passou por testes clínicos da Anvisa, não é um medicamento disponível ao público, não tem estudo clínico em andamento e permanece em fase acadêmica de investigação. Mesmo assim, o tema tem despertado interesse de pesquisadores e gerado expectativa em pessoas com paraplegia e tetraplegia em vários países. “É um sinal de esperança”, resume Thamires. O acidente que mudou tudo Thamires ficou paraplégica após um acidente na BR-116, em Teófilo Otoni Arquivo pessoal Antes do acidente, Thamires levava uma rotina intensa. Formada em engenharia de produção, ela trabalhava como coordenadora administrativa de uma escola de idiomas online. Além disso, tinha uma segunda profissão: era DJ. O interesse pela música surgiu de forma quase casual. “Eu comecei a frequentar algumas festas com amigos e conheci DJs que falaram que eu tinha perfil. Fiz um curso e comecei a tocar”, lembra. Com o tempo, passou a se apresentar em eventos e festas na região de Governador Valadares, muitas vezes viajando para cidades próximas. Na noite de 12 de dezembro de 2025, Thamires estava em um evento na cidade de Teófilo Otoni. Depois da apresentação, ela e três colegas iniciaram a viagem de volta para casa. Era madrugada de 13 de dezembro quando o carro em que estavam sofreu um grave acidente na BR-116. Thamires permaneceu consciente durante todo o resgate. "O carro capotou várias vezes... Assim que me tiraram, eu já não sentia mais as minhas pernas", contou. Das quatro pessoas que estavam no veículo, duas tiveram ferimentos leves. Já Thamires e outro DJ ficaram gravemente feridos. De imediato, ela foi levada para um hospital em Teófilo Otoni, onde exames revelaram a extensão das lesões. Ela fraturou seis costelas, a escápula esquerda, perfurou o pulmão e sofreu uma grave lesão na coluna. A fratura aconteceu entre as vértebras T10 e T11. Segundo ela, a vértebra T10 foi pressionada para dentro, provocando o rompimento total da medula espinhal. Na medicina, lesões desse tipo são consideradas permanentes. Ela permaneceu internada desde o dia do acidente e passou por cirurgia poucos dias depois. Mesmo diante da gravidade do próprio quadro, Thamires diz que demorou a perceber totalmente o que estava acontecendo. "Eu acho que eu estava em estado de choque. Então a todo momento eu brincava... tive um corte aqui do lado, o rapaz disse: 'Eu vou pegar anestesia', aí eu brinquei com ele e falei: 'Nem precisa'." A dimensão da situação começou a aparecer apenas depois. “Agora que a ficha está começando a cair.” A busca por uma alternativa ‘É um sinal de esperança’, diz Valadarense que recebeu a polilaminina; mulher foi a primeira mineira a receber a proteína Luciana Ferreira/Inter TV dos Vales Durante os dias em que Thamires permaneceu internada — boa parte do tempo na UTI e sem acesso ao celular — familiares começaram a buscar informações sobre possíveis tratamentos. Foi uma ligação inesperada que mudou o rumo da história. Em ligação, o chefe do pai dela contou sobre pesquisas acadêmicas envolvendo a polilaminina. A informação chegou por meio da esposa dele, enfermeira no Rio de Janeiro. De imediato, a família entrou em contato com a equipe ligada à Tatiana Sampaio, pesquisadora responsável pelos estudos acadêmicos da substância. “Eles responderam em poucos minutos dizendo que havia possibilidade, mas que precisávamos da liberação da Anvisa”, conta. Como a polilaminina ainda está em fase inicial de estudo e não há estudo clínico em andamento, o acesso só é possível por meio de uso compassivo, previsto em lei para casos em que não há alternativas terapêuticas. Por isso, a família entrou com um pedido na Justiça. Após uma negativa inicial, a autorização foi concedida. Transferência para Governador Valadares Na época, Thamires estava internada em Teófilo Otoni. Para viabilizar a aplicação do medicamento, foi necessária uma transferência para Governador Valadares. A logística também era um desafio: a equipe médica responsável estava no Rio de Janeiro, e a proximidade do feriado de Natal dificultava os deslocamentos. Apesar das dificuldades, a aplicação da polilaminina foi realizada no Hospital Regional de Governador Valadares no dia 26 de dezembro de 2025, apenas 13 dias após o acidente. Como funciona a polilaminina Estudo da polilaminina aponta que proteína pode ajudar a devolver movimentos para quem tem lesões na medula Reprodução/TV Globo A laminina atua como uma espécie de “andaime” biológico que estimula o crescimento e a conexão entre neurônios. No caso da polilaminina, pesquisadores desenvolveram uma rede de proteínas capaz de recriar esse ambiente favorável à regeneração do tecido nervoso. Na prática, a substância funciona como uma ponte que pode ajudar axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos — a se reconectarem após uma lesão na medula. Apesar do potencial observado em modelos de laboratório, não há testes clínicos concluídos, e os pesquisadores reforçam que a substância ainda está em fase inicial de investigação. “É uma área da medicina que não é exata. Cada organismo pode reagir de uma forma”, explica Thamires. Antes da aplicação, a equipe médica conversou com Thamires sobre as expectativas e as incertezas do tratamento. A posição necessária para o procedimento, porém, causava muita dor devido às fraturas nas costelas e à cirurgia recente. Por isso, ela foi anestesiada. “Quando acordei, a equipe já tinha ido embora”, conta. Recuperação e fisioterapia Depois da aplicação, Thamires ainda enfrentou algumas complicações, incluindo uma pneumonia hospitalar. Ela recebeu alta no dia 9 de janeiro e passou a morar na casa dos pais, em Governador Valadares. Desde então, iniciou uma rotina intensa de fisioterapia. As sessões acontecem cinco vezes por semana, além de exercícios realizados em casa. Parte do atendimento também é feito pelo Serviço de Atendimento Domiciliar da prefeitura. Os exercícios incluem estímulos de sensibilidade, fortalecimento muscular e treinos de postura em equipamentos específicos que permitem que ela fique em pé. “No começo eu ficava totalmente instável. Agora já consigo me manter mais firme.” Pequenos sinais Primeira paciente mineira a receber polilaminina consegue responder estímulos Ainda é cedo para afirmar quais efeitos o tratamento poderá trazer. Mesmo assim, Thamires diz que começou a perceber algumas mudanças. “Às vezes alguém passa a mão e eu sinto. Passa de novo e não sinto. Como se fosse uma faísca passando por uma ponte.” Recentemente, ela também teve um espasmo na perna e conseguiu realizar um pequeno movimento durante a fisioterapia. “Foi muito pouco, mas para mim já é um ganho.” A primeira vez que percebeu alguma sensibilidade, ela se emocionou. “Eu chorei. Porque veio aquela esperança.” Mesmo diante das incertezas, Thamires diz que tenta manter uma perspectiva positiva. Ela sabe que a recuperação pode levar anos — e que o tratamento pode ou não trazer resultados significativos. “Pode demorar três anos ou mais, ou pode não voltar. A gente precisa lidar com as duas possibilidades.” Ainda assim, ela prefere olhar para frente. “Quero mostrar que a vida não acabou. Mesmo sobre rodas, ainda é possível viver.” E, para ela, a polilaminina representa justamente isso. “É um sinal de esperança... E caso outra pessoa esteja na mesma situação, eu sigo de experiência, inspiração que a vida não acabou. A gente consegue ainda ter uma vida mesmo sobre rodas", finalizou. Entenda como funciona a polilaminina. Arte/g1 Vídeos do Leste e Nordeste de Minas Gerais Veja outras notícias da região em g1 Vales de Minas Gerais.